quinta-feira, junho 16, 2005

 

A Gaiola das Malucas (1ª parte)

Suspeito que o nosso país não tenha grande hipótese de ombrear com os demais parceiros geográficos.
Isto deve-se a várias razões, algumas das quais passo a enumerar.
A caça às reformas – Subitamente, num dia de calor, as redacções dos jornais acordaram para um facto que era por demais conhecido: as reformas especiais.
Com um ar de cândida indignação foram divulgando as reformas provenientes de institutos públicos, de cargos políticos, etc.
Estas reformas constituem de facto um tratamento de excepção injustificável em democracia.
Até que se chegou ao cúmulo da estupidez, através do Expresso que costuma fazer bem melhor: a reforma do Presidente da República.
Sampaio, como qualquer advogado português, efectuou os seus descontos para a Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores que é um fundo privado. Recebe a reforma a que tem direito, sem que isso custe um cêntimo ao erário público. Sendo assim, as finanças do Estado em nada são oneradas, não é gasto qualquer montante do dinheiro dos contribuintes.
Para nos apercebermos da dimensão da estupidez, vamos tomar o seguinte exemplo: suponhamos que um cidadão nacional constitui uma poupança reforma no estrangeiro e que, no fim do prazo contratado, recebe por isso um montante mensal a título de complemento de reforma. Suponhamos até que estamos a falar de um montante de 5.000 euros por mês. Imaginemos agora que esse cidadão é nomeado ministro do governo aqui do nosso jardim à beira mar plantado. Não há qualquer razão para que esse cidadão prescinda da sua reforma. Ela nada tem que ver com as contas públicas.
Mas então esta coisa das reformas não se tornou pública e notória com o caso Mira Amaral durante o governo Santana Lopes? Eu pensava que sim, se calhar foi impressão minha.
E agora que alguém começa a meter travão na situação vai de confundir o Zé Povinho atirando-lhe com situações que nada têm a ver com o problema.
Não fosse a hipocrisia e falta de coragem de sucessivos governos que, em vez de pagarem o salário adequado às responsabilidades e exigência técnica, vão mantendo salários discretos e em simultâneo criam benesses paralelas, e nada disto estaria a acontecer.
Enfim, peculiaridades nacionais.
Dir-me-ão que isto não tem qualquer relação com o desenvolvimento nacional ou com a resolução das grandes questões. Tem sim: enquanto não encararmos os problemas com seriedade intelectual, iremos continuar a atrasar as modificações necessárias.
(continua)

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